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segunda-feira, 15 de junho de 2009

Abertura

E finalmente aconteceu!! Após várias semanas de combate à burocracia consegui me pôr no ar no comando do fantástico (!?) AMT 600 Guri, máquina fabricada no Sul do Brasil, pela Aeromot.

Depois vou postar o processo inicial passo a passo para os iniciantes incautos, como eu. Mas por enquanto vou descrever minha 1a viagem (literalmente).

Tudo começou sexta-feira, dia 05 de junho. Marquei o vôo para 11:00 da manhã, com céu limpíssimo, e zona de alta pressão na área do aeroporto de Jacarepaguá.

Cheguei lá pontualmente - iniciante é isso, cheio de ansiedade. Fui alocado para o instrutor adequado e iniciamos os procedimentos de apresentação à aeronave. Coisa muito interessante, deve-se inclusive apalpar a bichinha. Melhor mesmo tratar bem aquela que vai lhe trazer de volta ao chão inteiro.

Começamos pelo check externo. Verifica-se cada parafuso das superfícies de controle. Ailerons, estabilizador vertical e profundor. Verificamos o estado do trem de pouso, dos instrumentos externos, área do motor, entrada de ar desobstruída, e até fizemos checagem de qualidade de combustível em cada tanque. Muito sério o trabalho, e também muito interessante. Reduzimos sensivelmente o risco da atividade.

Foto do Guri


Então adentrei o aparelho e aí começam os diversos checks, até ligar o motor. Essa foi uma parte engraçada. Cadê que ligava o treco??? Lembrei do meu Chevelho a álcool! E toma bombada na manete de potência, e tenta e nada!! Só ligou quando o instrutor variou a mistura, aí o bichinho pegou e ficou.

Após rápido contato com a torre, efetuado pelo instrutor, iniciamos o táxi para a posição de espera para decolagem. Aqui vale outro comentário: Alguém aqui já pilotou um tanque de guerra? Deve ser bem parecido! Você varia a direção da aeronave freando uma das rodas. A biquilha é livre e sem controle. Resultado, a nave anda serpenteando pela pista. Em linha reta jamais.

"Torre, aqui Papa Tango Juliette Sierra Mike pedindo permissão para decolagem pista 02." - mandou o instrutor para a torre. E eu pensando: "Ih, vou decolar esse troço!". Recebi as dicas do instrutor, o tráfego que estava pousando passou por nós e lá fui eu. Taxeei adiante, virei à direita, alinhei com a pista... Aí meu instrutor vira-se para mim e fala:"Tá esperando o que?? Acelera tudo e vamos voar!" - Hahahaha!!! Yessss, sir!!! Não foi preciso dizer de novo. Dei motor e no próximo instante estava sacolejando na pista, ganhando velocidade. Para controlar o bicho, algum desconforto, mas nada demais. Aliviei o peso da biquilha ao atingir um pouco de velocidade e a 70 nós puxei o manche suavemente... senti a cadeira se apertar e subimos!! Espetáculo!! Estava voando.

Nesse momento pensei na minha esposa e em todo o apoio que ela me dera nesta nova empreitada, que para ela só iria representar preocupação e ansiedade. Sem uma mulher espetacular o homem não é nada. Espero um dia poder levá-la em viagens agradáveis para ela curtir também.

Então surgiu um personagem que iria ficar em nossas mentes por todo o vôo. O Urubu. Não bastasse ser símbolo do Flamengo, a fedorenta ave representa grande risco à aviação.

E claro, pelo 139º enunciado da Lei de Murphy, havia um aglomerado das detestáveis criaturas bem à nossa frente. Na falta de uma .50 no nariz do meu Guri para dispersar o bando, me contentei em fazer um desvio à direita. Chegamos a 2000 pés e nivelei a aeronave. Aqui mais um teste de atenção. Onde estamos em relação ao aeródromo, me pergunta o detalhista instrutor. Ao que respondo rápido: Norte, Nordeste. Satisfeito o camarada, curvamos para o mar. Aqui, nova indagação. "Estamos a Sul", respondi sem pestanejar. Pude perceber uma atmosfera de satisfação emanando do instrutor, que então decidiu: "Vamos à Ipanema?" - me pergunta ele. "Claro!" - responde o novato feliz da vida. O céu estava glorioso, mas turbulento, e a nave saculejava bastante. Nada que chegasse próximo do meu nível de felicidade, claro.

Seguiu-se pedido de permissão à torre, designação de número de transponder - 2007 neste caso, e seguimos para Leste e o arpoador. Vou aqui fazer uma pequena divagação, meus milhares de leitores vão provavelmente me perdoar. Em todas as comunicações com a torre de controle até então só pude perceber um nível elevado de profissionalismo, cordialidade e bom humor. Os parabéns deste novato à equipe que toma conta da gente lá de baixo. Me senti todo o tempo protegido e resguardado.

Voamos o tempo todo sobre o mar, e fomos até o Arpoador. O visual estava fantástico, e foi um passeio incrível. O instrutor tentou permissão para atravessar para Copacabana, mas foi negado. Voltamos então para Jacarepaguá para o pouso.

Alinhei o avião com a pista seguindo as dicas do instrutor e iniciamos a descida com potência no mínimo, flaps baixados. Mantendo 70 nós ia levando o Guri suavemente para pouso quando fomos interrompidos por dois urubus (sempre eles!!) que entraram na frente do avião. O instrutor imediatamente deu uma guinada forte para baixo e à esquerda desviando dos desagradáveis animais. Quando retomou o prumo o avião estava bastante avançado na pista. Após me alertar para não fazer este tipo de descida o instrutor apontou o nariz para baixo e pousou o avião usando pouquíssima pista. Estávamos no chão.

Neste momento pude ver que pilotar cansa. Pernas dormentes, ombro esquerdo meio doído também, fiz o táxi como pude para o hangar e encerramos o vôo.

Ia voar no Domingo seguinte, mas o tempo ruim me desanimou. Quem sabe esta semana São Pedro e a agenda de trabalho permitem?? Para o alto... e Avante!!